Os Pensamentos e Caminhos de Deus

Os Pensamentos e Caminhos de Deus É comum ouvirmos pessoas evangélicas se dirigirem a Deus com as seguintes palavras: "seus caminhos são maiores que os meus, e seus pensamentos são melhores do que os meus". Todos que se dirigem assim a Deus, ao que parece, tem por base uma única passagem da bíblia, a saber: Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos , nem os vossos caminhos os meus caminhos , diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos. [Is 55.8-9] Mas será que isto está evangelicamente correto? Será que esta mensagem é dirigida aos filhos de Deus? Já, em eu vos questionar, vos incito a voltar ao texto e, se fizerdes uma leitura mais detida, percebereis que a resposta é NÃO . Se a resposta à pergunta acima posta é não , podemos afirmar, então, que os pensamentos e caminhos dos filhos de Deus são iguais aos p...

Dai Esmolas - Um Mandamento

Dai Esmolas - Um Mandamento

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Este artigo fora construído tendo por base, além das informações das Escrituras, informações da cultura judaica, assim, devido a limitação do Mensageiro, pode não refletir com a correta fidelidade a sua realidade cultural. Mas, superior a esses elementos culturais, é o valor que se tenta transmitir com este artigo. Assim, é, mesmo, aconselhável que o interlocutor leia outros artigos sobre o tema. 

TZEDAKÁ

Tzedaká!, Tzedaká!, Tzedaká!, gritavam os pobres israelitas aos seus compatriotas. Tzedaká!, Tzedaká!, isto é, façam-me justiça!, façam-me justiça!, deem-me algo e façam-me justiça!. Tzedaká!, Tzedaká!. Assim eram os rogos, as súplicas dos necessitados, entre o povo israelita.

Tzedaká era, assim, o direito que tinha um necessitado de receber de seu irmão uma esmola. Na verdade, tzedaká é a própria esmola. Não na acepção que se tem de esmola hoje, como um favor, uma mera benevolência feita a critério exclusivo do esmolante.

Por isso mesmo, Tzedaká, para os judeus, nunca foi tratada como uma voluntariedade, nunca foi uma mera caridade, cuja motivação residisse apenas na vontade do homem que a fizesse. Tzedaká sempre foi, sim, um mandamento, ou seja, um mitzvá, cujo cumprimento atendia à vontade não do homem, mas de Deus.

Diante disso, os responsáveis por estudar as escrituras não concordam que a esmola seja uma mera filantropia, mas, mais do que caridade, a esmola é o cumprimento da justiça social e, principalmente da Justiça Divina

Nesse sentido, TZEDAKÁ assemelha-se a TZEDEK, que significa JUSTIÇA.

Como mandamento para a efetivação da justiça, o Tzedaká está determinado, no seguinte versículo:

Pois nunca deixará de haver pobre na terra; pelo que te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre na tua terra. [Dt 15:11]

Percebe-se, então, que é uma ordenança divina. Ordenança que se repete em inúmeras outras passagens, como se vê na passagem abaixo:

Fazei justiça ao pobre e ao órfão; justificai o aflito e o necessitado. Livrai o pobre e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios. [Sl 82.3-4]

O próprio Deus é conhecido por ser o Pai de órfãos e Juiz de viúvas [Sl 68.5] e, também, como a pessoa por meio de quem o órfão alcança misericórdia. [Os 14.3]

Eleemosyna

A nossa palavra esmola deriva da palavra latina eleemosynaque, por sua vez, origina-se da palavra grega ἐλεημοσύνη [eleemosyne], com ideia de compaixão.

A compaixão é a outra face do mandamento, pois o mandamento é um aio, um pedagogo, que orienta de fora para dentro. Por sua vez, a compaixão opera de dentro para fora, não depende de mandamento, mas, sobretudo, do entendimento de que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus, não tendo sido feito para sofrer.

A compaixão é a empatia, a capacidade de sentir junto com o outro, de se procurar entender e padecer junto com aquele que sofre: chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram. É a lei que opera no coração.

O mandamento funciona, sobretudo, quando não há a lei no interior. É o elemento externo a que se recorre para se entender o que se deve fazer. Funciona como uma espécie de presbítero, um supervisor das atitudes de alguém.

A compaixão revela as obras da fé, sem aquelas, esta se torna inócua. Aquele que opera por compaixão e não por mandamento o faz pela lei do coração, como está escrito: 

Mas esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. [Jr 31:33]

Tudo isso se justifica porque o que opera pela lei que está no coração revela o espírito da lei, isto é, o seu princípio, a que toda a lei se resume. Assim, aquele que busca cumprir o mandamento, em observância apenas à letra da Lei, morrerá, “pois a letra mata e o espírito vivifica”.

A Esmola Piedosa, Compassiva

Em Cornélio, centurião da coorte Romana e que habitava em Jerusalém, podemos perceber o que é exercer compaixão pelo espírito da lei e não simplesmente pela sua letra, i.e., pela sua ordenança. Isso fica nítido, pois Cornélio não estava sujeito à Lei dos judeus, mas entendia, em seu coração, que deveria ser piedoso, isto é, cumprir com os seus deveres para com seu próximo.

Cumpre-se, assim, em Cornélio, o que está dito pelo Apóstolo Paulo: 

Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os; No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho. [Rm 2.13-16]

E sobre este Cornélio se relata o seguinte:

E havia em Cesaréia um homem por nome Cornélio, centurião da coorte chamada italiana, piedoso e temente a Deus, com toda a sua casa, o qual fazia muitas esmolas ao povo, e de contínuo orava a Deus. 
Este, quase à hora nona do dia, viu claramente numa visão um anjo de Deus, que se dirigia para ele e dizia: Cornélio. O qual, fixando os olhos nele, e muito atemorizado, disse: Que é, Senhor? E disse-lhe: As tuas orações e as tuas esmolas têm subido para memória diante de Deus.  [At 10.1-4]

O Tzedaká e a Esmola - Antigo e Novo testamento

Hoje concebemos os necessitados apenas quando encontrados na condição miserabilidade, revelada pela mendicidade, pelo desamparo. Porém, como vimos, os necessitados, nas Escrituras, eram representados por aqueles que se encontravam em uma simples condição de vulnerabilidade
  1. O estrangeiro [forasteiro] - representava aquele que deixara sua terra para se aventurar numa nova terra, naturalmente, por ser um estranho, é recebido sob suspeita;
  2. A viúva - mulheres que perderam seu principal mantenedor - o marido; e
  3. Os órfãos - aqueles que também perderam seu mantenedor - o Pai, perdendo, ainda, sua mãe.

Não se tratava de mendigos, mas apenas de necessitados. A diferença do necessitado para o mendigo reside no fato de aquele, diferente deste, não ter sido desamparado. O mendigo é o desamparado.

O Dever de Amparo

Quando um necessitado recebe acolhimento, tem, assim, sua necessidade atendida, ou seja, ele está amparado. Quando não recebe acolhimento, o necessitado passa ao estado de desamparo, lhe restando a mendicância.

A mendicidade parece ter sido algo – no meio de Israel – que se foi desenvolvendo ao longo do crescimento da nação, em razão, justamente, da falta de compromisso para com o mandamento dO SENHOR, por conseguinte, os necessitados não encontravam apoio entre os seus, o que lhes empurrava para a condição de miserável, de pedinte, de mendigo.

Este pobre, o necessitado, era referido, no Antigo Testamento, por ANAWIN, aquele que se inclina. Em o Novo Testamento, a palavra é PTOCHOI, aquele que se rasteja, que mendiga.

Para que as pessoas, adrede mencionadas, não ficassem desamparadas diante do povo, Deus tratou de estabelecer uma espécie de "código dos necessitados". 

Neste "código", normas esparsas na Lei, nas Escrituras, previam desde o resgate da viúva, até à adoção do órfão por seu parente mais próximo. Assemelha-se ao que hoje se conhece como Assistência Social de que trata a nossa [do Brasil] Constituição Federal.

Podemos ver no caso envolvendo Noemi a belemita e Rute a moabita, exemplo de um resgate a uma viúva e, nos casos de Sarai e de Ló, filhos de Harã, adotados por Abrão, irmão deste e tio daqueles, exemplos de adoção de órfãos. Daí surge a figura do remidor.

Quanto aos direitos dos estrangeiros, decorria do dever de hospitalidade, tendo como mola propulsora o fato de os próprios israelitas terem sido estrangeiros na terra do Egito, como está escrito:

Também não oprimirás o estrangeiro; pois vós conheceis o coração do estrangeiro, pois foste estrangeiros na terra do Egito. [Ex 23.9]

O Grito por Justiça - Tzedaká!

Vê-se, dessa forma, que não havia espaço para que uma pessoa ficasse desamparado, pois, caso não houvesse remidor, o pobre tinha o direito de colher os rabiscos no campo, de onde subsistiriam, além do recebimento das ofertas que se depositavam para este fim. Assim, praticamente, não havia mendigos, isto é, desamparados.

Quando, porém, uma situação se agravava sobre qualquer dos órfãos, viúvas ou estrangeiros, o oprimido gritava por justiça, gritavam TZEDAKÁ:

E uma mulher, das mulheres dos filhos dos profetas, clamou a Eliseu, dizendo: Meu marido, teu servo, morreu; e tu sabes que o teu servo temia ao SENHOR; e veio o credor, para levar os meus dois filhos para serem servos. [2Rs 4.1];

Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano. [At 6.1]

Em ambos os casos, vemos gritos de viúvas, decorrentes de opressão ou injustiça. No primeiro, um grito direcionado a um profeta, no segundo, direcionado aos apóstolos.

Também os gritos dos pobres e necessitados chegaram ao ouvido de Deus, servindo de motivo para destruição de Sodoma:

Disse mais o Senhor: Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito; descerei agora, e verei se com efeito têm praticado segundo o seu clamor, que é vindo até mim; e se não, sabê-lo-ei. [Gn 18.20-21]

Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: [...] nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado. [Ez 16.49, parte final]

O Pedido por Esmola [compaixão]

O ato de esmolar, ou compadecer-se, assim, equivale ao dever de se realizar justiça, ou seja, o grito por compaixão e misericórdia ainda está presente e deve ser atendido, pois o verdadeiro evangelho é visitar os órfão e viúvas em suas necessidades.

Dos Desamparados

Todo Estado que se diz sério tem, em seu escopo normativo, dispositivos que tratem da causa dos necessitados, de modo a não os desamparar. O nosso [o Brasil], em sua Constituição [1988], Título VIII, Da Ordem Social, Capítulo II, Da Seguridade Social, Seção IV, trata da Assistência Social, que consiste, por sua vez, na previsão de assistência aos necessitados e desamparados.

Acontece que, com o quebrantamento da lei, aliado ao esmaecimento do amor, os necessitados entram em estado de desamparo, o que contribui para o agravamento de sua necessidade, culminando, por isso, em estado de miserabilidade.

O homem em estado de miserabilidade passará a pedinte, entrando, assim, na condição de mendicidade. Este homem, está, assim, privado da TZEDAKÁ, da Justiça Social e da ELEEMOSYNA, da Compaixão.

Quando no estado de desamparo, o homem já não crê mais em justiça, de modo que o seu clamor, agora, é por misericórdia:

E, ouvindo que era Jesus de Nazaré, começou a clamar, e a dizer: Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim. [Mc 10.47]

Dai Esmolas

O próprio JESUS, repreendendo ao Fariseus, disse: “Antes dai esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo.” [Lc 11:41]. Esse dever de compaixão deve ser exercido por todos os seres humanos.

A quem, portanto, se deve dar esmolas? Aos necessitados. Quem são os necessitados? Pelos exemplos que se extraem das Escrituras [Dt 24.17-22], podemos perceber que há três classes de pessoas que se enquadram como necessitados: o ÓRFÃO, VIÚVA e o ESTRANGEIRO.

Este cuidado se manteve após a subida de Jesus aos Céus [At 6.1]. Como diz o irmão Tiago: 

A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo. [Tg 1:27]

Quanto aos estrangeiros, o escritor aos hebreus, remetendo à hospedagem despretensiosa, pois achava tratar-se de dois peregrinos, concedida por Ló a dois anjos, vai dizer: “não vos esqueçais da hospitalidade.” [Hb 13.2]. Essa hospitalidade, concessão de hospedagem, é pré-requisito para se entrar no Reino de Deus. [Mt 25.35]

Além destes, se encontram como necessitados os presos; os maltratados; o nu; o faminto; o sedento; e o doente. [Hb 13.3 c/c Mt 25.35ss]

E todo aquele que fizer apenas o que se lhe manda, bata no peito e diga: sou inútil!, pois fiz tudo o que me mandaram.

Conclusão

O TZEDAKÁ está ligado à justiça [TZEDEK], nesse sentido, entendendo-se por justiça “dar a cada um o que lhe é devido”, o cumprimento deste mandamento, então, não é uma opção, trata-se de um dever que deve ser perseguido por todos.

Nesse sim, devemos dar honra a quem honra, tributo a quem tributo, temor a quem temor, não devendo coisa alguma a quem quer que seja. Quando um necessitado pede uma esmola, intrínseco ao seu pedido está: faça-me justiça!

Não deixes de fazer bem a quem o merece, estando em tuas mãos a capacidade de fazê-lo. Não digas ao teu próximo: Vai, e volta amanhã que to darei, se já o tens contigo. [Pr 3:27-28]

Adendo

É comum alguém dizer que a esmola estraga a pessoa em situação de rua, que doações de alimento ou dinheiro a pedintes é como alimentar animais de rua; ficarão alimentados, mas continuarão em situação de rua. 

Acontece que quase ninguém, senão uma instituição mais sólida, têm condições para acolher um mendigo ou reverter a sua situação de rua. O que o esmolante faz, todavia, é permitir ao pedinte e mendigo uma sobrevida, até ao ponto em que alguém mais capaz possa atentar para ele.


Deus É Fiel!


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